SOMOS UM AGLOMERADO DE ACONTECIMENTOS
- Erasmo Lima
- 21 de jan.
- 2 min de leitura

Somos um aglomerado de acontecimentos, ou como dizia Deleuze e Guattari, “somos acontecimentos”. Não no sentido caótico de algo sem forma, mas como uma constelação viva de instantes que provocam movimentos, podendo ser harmoniosos ou conflitantes, porém, ambas se transformam em memória, identidade e desejo. Cada pensamento, sentimento e gesto que fazemos, cada palavra que ouvimos, cada silêncio que nos atravessou abre possibilidades para novos modos de estar no mundo.
O nada não pode produzir algo, ou seja, o que chamamos de “eu” é a soma provisória de experiências: encontros que nos ampliaram, perdas que nos quebraram, escolhas que fizemos. Até aquilo que esquecemos continua operando, moldando reações, medos e afetos, afinal de contas somos consciente-inconsciente. O passado e o futuro não estão fora de nós; eles pulsam no presente.
Ser um aglomerado de acontecimentos é admitir que estamos em constante mutação. Não somos uma essência fixa, somos um processo, uma metamorfose. A cada dia, algo nos acontece — uma ideia, uma decepção, uma descoberta — e esse algo nos altera, ainda que de forma imperceptível. Mudamos sem perceber, como quem cresce enquanto vive, e ao mesmo tempo morre.
Também é por isso que somos contraditórios. Em nós convivem versões antigas e novas, certezas frágeis e dúvidas insistentes. Carregamos acontecimentos que não se resolvem, que permanecem abertos, exigindo interpretação. Viver é, em grande parte está sendo nos acontecimentos.
Reconhecer-se como um aglomerado de acontecimentos é aceitar a complexidade de existir. É compreender que não somos definidos por um único momento, erro ou acerto, mas pela trama da vida que nos compõe. É, sobretudo, entender que enquanto houver tempo, novos acontecimentos ainda podem nos refazer. Ou seja, é reconhecer que os acontecimentos são capazes de produzir novas formas de subjetividade e de sociedade.
Erasmo Lima - Psicanalista





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