A CULPA NA ESTRUTURA NEURÓTICA
- Erasmo Lima
- há 3 dias
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A culpa é um afeto responsável por uma parte significativa do sofrimento próprio da condição neurótica. Longe de se reduzir a um sentimento meramente moral ou socialmente aprendido, ela é compreendida como um efeito estrutural da relação do sujeito com o desejo, a lei e o Outro. Na neurose, a culpa emerge como um operador psíquico que articula conflito, repressão e sofrimento, constituindo-se como um dos eixos fundamentais da angústia humana.
Freud aponta que as neuroses se organizam de diversas formas, ou seja, apresentam diferentes tipos, tais como: as neuroses de transferência, a neurose de defesa, a neurose obsessiva e as neuroses atuais, que englobam a neurastenia e a neurose de angústia. No entanto, neste texto, daremos ênfase à neurose obsessiva, cuja principal marca afetiva é a culpa e o recalque. Segundo Freud, essa culpa nasce justamente do conflito entre os desejos — sobretudo os inconscientes — e as exigências da realidade, mediadas pela instância do superego. Mesmo quando o desejo não se realiza no plano consciente, sua simples existência é suficiente para produzir culpa. Assim, o sujeito neurótico sente-se culpado não apenas pelo que fez, mas, sobretudo, pelo que desejou, ainda que esse desejo permaneça recalcado.
Freud situa a origem da culpa no próprio processo de humanização. Em O mal-estar na civilização, demonstra que a vida em sociedade exige a renúncia pulsional. Para que o sujeito possa viver em comunidade, parte de seus impulsos agressivos e sexuais precisam ser contidos. Essa renúncia não ocorre sem deixar marcas; ao contrário, ela se transforma em culpa. O sujeito passa a dirigir contra si mesmo a agressividade que não pode descarregar no mundo externo. Desse modo, a culpa surge como efeito da interiorização da lei e da violência simbólica que a sustenta.
O sofrimento provocado pela culpa pode assumir diferentes formas clínicas, como estados depressivos, inibições, necessidade constante de punição e sintomas obsessivos, tais como pensamentos que se apresentam sob a forma de ideias obsessivas, dúvidas incessantes e impulsos intrusivos. Todos esses mecanismos visam controlar ou neutralizar a angústia. Em muitos casos, o sujeito organiza sua vida de modo a confirmar uma culpa inconsciente, como se estivesse preso ao pagamento de uma dívida, sendo capturado por uma lógica de autopunição.
A psicanálise não propõe a eliminação da culpa, mas sua elaboração. Por meio da fala e da escuta atenta, a análise abre possibilidades para que o sujeito localize e reconheça a origem de sua culpa, podendo, assim, deslocar-se da posição de acusação constante. Elaborar a culpa não significa abdicar da responsabilidade, mas assumir o próprio desejo sem sucumbir à tirania do superego. Nesse movimento, o sofrimento humano ligado à culpa pode ser transformado em possibilidade de subjetivação, permitindo ao sujeito viver de forma menos marcada pela punição e mais aberto à negação ou à afirmação de seu desejo.
Dessa forma, pode-se afirmar que, na estrutura neurótica, a culpa não é um simples erro a ser corrigido, mas um elemento estrutural que revela o modo como o sujeito se relaciona com o eu, a lei, o desejo e o Outro. Compreender esses conflitos é fundamental tanto para pensar o sofrimento neurótico quanto para vislumbrar as possibilidades de subjetivação que a experiência do setting analítico pode desvelar.
Erasmo Lima - Psicanalista





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