O RESSENTIMENTO
- Erasmo Lima
- 2 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 18 de nov. de 2025

O ressentimento é um conceito presente tanto na filosofia quanto na psicanálise. Em termos gerais, pode ser compreendido como um afeto negativo persistente, que surge quando alguém se sente injustiçado, ferido ou impotente para reagir diante de uma situação. Em vez de ser elaborado e superado, o afeto permanece guardado, petrificado internamente, transformando-se em amargura, hostilidade e produzindo um desejo de vingança — ainda que, muitas vezes, de forma silenciosa.
Esse afeto nasce com a perda da plasticidade da vida. O sujeito passa a sentir-se incapaz de agir; suas forças criativas ficam impotentes por deixar-se levar pelos piores sentimentos. Sua reação perde efeito: ele apenas ressente, permanece imóvel, sem saber o que fazer ou como agir. Assim, o mundo torna-se insuportável.
O ressentimento é também uma condição da sociedade moderna. Nietzsche é o principal filósofo que discute e desenvolve esse conceito. Para ele, “o ressentimento é um afeto próprio de quem não consegue agir para transformar a realidade e, então, como forma de defesa, inverte os valores”. Ou seja, a pessoa sente uma agressão ou derrota, não consegue responder de forma ativa, interioriza a dor e cria justificativas morais para sua condição ou para rebaixar quem a fez sofrer. Dessa forma, podemos dizer que o ressentimento é também uma condição da covardia.
Para a psicanálise, o ressentimento é o retorno de um afeto recalcado ligado a uma experiência de humilhação, perda ou falta. A pessoa ressentida sente-se injustiçada ou desprezada; ela não consegue esquecer ou elaborar o acontecimento. Mantém o outro internamente presente como objeto de queixa, fica fixada no objeto que lhe causou o dano — passa o dia com o objeto, dorme com o objeto — alimentando uma revolta e cultivando a vingança como tentativa de aliviar a dor.
Lacan relaciona o ressentimento ao “gozo”: há algo de satisfatório em manter a ferida inflamada. Nietzsche também afirma que “o ressentimento a ninguém é mais prejudicial do que ao próprio ressentido”. Ele potencializa a incapacidade de agir, enfraquece forças emergentes e limita novas formas de construir a própria vida.
Por isso, é importante procurar um profissional para compreender melhor esse afeto e, a partir do processo analítico, encontrar novos horizontes no modo de ser no mundo. Somente lançando-se em novas produções desejantes e abraçando os devires será possível superar — ou ao menos equilibrar — a tensão entre falta e excesso na vida cotidiana.
Erasmo Lima - Psicanalista





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