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SERÁ QUE REALMENTE QUEREMOS O QUE DESEJAMOS?

19 de ago
4 min de leitura

“Será que realmente queremos o que desejamos?” Essa pergunta parece, à primeira vista, paradoxal. Afinal, se desejamos alguma coisa, por que não a queríamos? Talvez uma das maiores ilusões do ser humano seja acreditar que conhece inteiramente aquilo que deseja.


Na experiência cotidiana, costumamos imaginar que sabemos o que queremos: queremos uma determinada profissão, uma relação amorosa, reconhecimento, dinheiro, sucesso, estabilidade, liberdade ou felicidade. Organizamos nossa vida em torno desses objetivos e acreditamos que, quando finalmente os alcançarmos, encontraremos satisfação. Porém para nossa surpresa nem sempre isso acontece. 


Freud mostrou que o sujeito não é plenamente consciente das forças que o atravessam. O inconsciente participa de nossas escolhas, fantasias, sintomas, repetições e decisões. Podemos conscientemente desejar determinada coisa e, ao mesmo tempo, produzir inconscientemente movimentos que nos afastam dela.


Podemos por exemplo desejar mudar de vida e, ao mesmo tempo, encontrar inúmeras razões para permanecer exatamente onde estamos. Isso significa que estamos mentindo para nós mesmos?  Não necessariamente, mas pode significar que o sujeito esteja dividido entre aquilo que afirma querer e aquilo que o desejo inconsciente coloca em movimento.


Querer não é o mesmo que desejar. O querer pode estar ligado à consciência, à decisão, ao planejamento e aos objetivos que formulamos. O desejo, entretanto, possui uma dimensão mais profunda e complexa. Ele atravessa o sujeito antes mesmo que este consiga transformá-lo em uma formulação consciente.


Existe um paradoxo no desejo humano: muitas vezes, quando alcançamos aquilo que acreditávamos desejar, a satisfação não corresponde à expectativa. Geralmente imaginamos que determinada conquista irá finalmente preencher uma falta. Trabalhamos para alcançar determinada posição, esperamos reconhecimento, buscamos uma relação, conquistamos algo que consideramos fundamental e, depois da conquista, surge a pergunta.


“Era isso mesmo que eu queria?” Essa pergunta pode ser angustiante.


Na perspectiva psicanalítica, isso não é simplesmente um fracasso. O desejo humano não funciona como uma necessidade biológica que desaparece definitivamente depois da conquista. O desejo é marcado pela falta e pela impossibilidade de uma satisfação absoluta. Por isso, talvez o problema não esteja apenas em não conseguirmos aquilo que queremos, mas, em  conseguirmos aquilo que pensávamos querer.


Em contrapartida, para Deleuze e Guattari , o desejo não deve ser compreendido simplesmente como falta de alguma coisa. O desejo é uma força produtiva. Ou seja, para esses autores, desejar é produzir conexões, encontros, relações e modos de existência. Isso significa que não desejamos apenas objetos. Desejamos também mundos.


Quando alguém deseja determinado emprego, por exemplo, talvez não esteja desejando simplesmente aquele cargo. Pode estar desejando reconhecimento, pertencimento, segurança, autonomia ou uma determinada imagem de si.


Quando alguém deseja uma relação amorosa, pode estar desejando também um determinado modo de existência, uma promessa de futuro, uma sensação de pertencimento ou uma forma de reconhecimento. O objeto desejado é apenas uma parte de uma rede muito maior.


Por isso, a pergunta deleuziana poderia ser: “Que mundo está sendo produzido por esse desejo?”


Na sociedade contemporânea, somos constantemente estimulados a desejar. Desejamos determinados corpos, profissões, estilos de vida, objetos, experiências, posições sociais e formas de reconhecimento.


A publicidade não vende apenas produtos, ela vende modos de existência. As redes sociais não apresentam apenas imagens, elas produzem modelos de felicidade. O mercado não oferece apenas mercadorias, ele participa da produção de desejos.


Isso não significa afirmar que todo desejo seja artificial ou manipulado. A questão é mais complexa. Deleuze e Guattari mostram que o desejo é sempre produzido em meio a relações sociais, econômicas, políticas, familiares e culturais. Não existe um desejo absolutamente isolado do mundo. Nós desejamos dentro de determinados territórios e alguns desses territórios podem ampliar nossa potência, enquanto outros podem nos aprisionar.


É difícil reconhecer isso, mas, o desejo pode desejar sua própria prisão. Podemos desejar aquilo que nos limita; podemos nos identificar com aquilo que nos aprisiona; podemos persistir com relações que nos diminuem, da mesma forma que podemos permanecer em instituições que nos submetem a modelos de vida que nos fazem sofrer.


É possível que uma pessoa diga querer liberdade, mas sinta segurança dentro de estruturas rígidas. Um sujeito pode desejar autonomia e, simultaneamente, desejar alguém que decida por ele. Ou seja, o desejo, portanto, não é necessariamente sinônimo de liberdade, pode muito bem levar a dependência.


Desejar implica abrir possibilidades, e possibilidades envolvem riscos. Logo, quando desejamos algo novo, precisamos abandonar pelo menos parcialmente, uma posição conhecida e segura. E nesse sentido, o desejo e o medo podem se encontrar.


A Psicanálise nos ensina que o desejo não é totalmente consciente, e que precisamos escutar aquilo que retorna, aquilo que repetimos, aquilo que nos causa sofrimento e aquilo que aparece de maneira aparentemente inexplicável em nossa história.


Enquanto Deleuze e Guattari nos convidam a observar o desejo em sua dimensão produtiva: o que ele está produzindo em nossa existência? Que encontros está possibilita? Que forças ativa está produzindo? Que modos de vida está criando?


Desejar, implica tornar-se outro. Quando levamos o desejo a sério, percebemos que desejar não significa simplesmente conquistar alguma coisa, mas, desejar pode significar transformar-se. Um novo desejo pode nos colocar diante de uma nova possibilidade de existência. Pode criar uma linha de fuga em relação a um território no qual já não conseguimos viver. É nesse sentido, que o desejo pode ser uma potência de criação.


Não se trata de realizar todos os desejos. Isso seria impossível e, muitas vezes, nem sequer seria desejável. Trata-se de aprender a distinguir entre desejos que ampliam nossa potência de existir e desejos que nos capturam em formas repetitivas de sofrimento. Então, a questão não é eliminar o desejo, mas produzir uma relação mais consciente e criativa com aquilo que nos move.


Conclusão

Talvez não saibamos completamente o que desejamos. “Será que realmente queremos o que desejamos?” Talvez a força dessa pergunta esteja justamente no fato de que ela não possui uma resposta definitiva. Afinal de contas, desejamos mais do que sabemos, repetimos mais do que compreendemos. 


E, muitas vezes, buscamos conscientemente aquilo que inconscientemente nos coloca diante de outra coisa. A Psicanálise nos ensina a escutar essa divisão. Deleuze e Guattari nos convidam a observar a potência produtiva do desejo e os mundos que ele cria.


Entre essas duas perspectivas, podemos compreender que, desejar é muito mais do que querer possuir algo. Desejar é colocar a vida em movimento.


Por isso, talvez a pergunta decisiva não seja apenas: “O que eu desejo?” Mas: “Que existência meu desejo está produzindo?” Porque, no final, não somos apenas aquilo que desejamos. Somos também aquilo que nossos desejos nos fazem tornar.


 
 
 

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