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QUANDO NÃO SEI O QUE ESCOLHER, O QUE DEVO FAZER?

17 de set.
4 min de leitura

Essa provocação toca o cerne da angústia humana e da invenção existencial. Ela nos permite perguntar não apenas qual escolha fazemos, mas também o que nos faz escolher quando acreditamos não estar escolhendo. À luz da Psicanálise e do pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari, essa encruzilhada deixa de ser compreendida apenas como uma forma de paralisação existencial e pode transformar-se em um momento crucial de reflexão sobre os processos de subjetivação.


Há momentos na vida em que nos deparamos com uma questão de difícil solução ou diante de várias possibilidades e simplesmente dizemos: “Não sei o que fazer.” À primeira vista, parece que estamos diante da ausência de uma decisão. Entretanto, é preciso desconfiar dessa aparente neutralidade e considerar esse momento como uma possibilidade de investigação sobre as motivações, conscientes e inconscientes, que podem estar sustentando aquilo que chamamos de indecisão.


Para a Psicanálise, o sujeito não é plenamente senhor de suas próprias escolhas. Freud rompe com a ideia de um sujeito transparente para si mesmo ao demonstrar a existência do inconsciente, isto é, de uma dimensão da vida psíquica que participa de nossos pensamentos, desejos, sintomas, repetições e decisões sem que tenhamos consciência plena de suas determinações.


Assim, quando afirmamos “não sei o que quero”, talvez estejamos capturados por desejos que ainda não conseguimos reconhecer ou formular. Mas também podemos estar diante de algo que, em termos psicanalíticos, diz respeito à relação com o desejo do Outro: aquilo que desejo pode estar atravessado por expectativas, demandas e ideais que não se originaram exclusivamente em mim.


Nesse sentido, o “não sei o que fazer” pode esconder alguma coisa. Posso não saber porque estou dividido entre desejos diferentes; porque temo as consequências de uma escolha; porque desejo algo que entra em conflito com aquilo que acredito que deveria desejar; ou porque minha decisão pode está capturada pelas expectativas e pelo desejo do outro.


Dessa forma, o sujeito pode acreditar que está simplesmente paralisado diante de diversas possibilidades, quando, na realidade, sua própria indecisão pode cumprir determinada função em sua economia psíquica. A partir do existencialismo de Jean-Paul Sartre, podemos pensar que até mesmo a recusa em decidir se relaciona com a liberdade, pois, ao não escolher, também produzimos consequências e preservamos determinadas possibilidades enquanto excluímos outras.


Não escolher pode, por exemplo, permitir que eu evite uma perda, mantenha alguém satisfeito, adie uma responsabilidade ou fuja do encontro com aquilo que realmente desejo. Dessa maneira, aquilo que aparece como “não escolha” pode produzir efeitos concretos sobre a própria existência.


Isso não significa, entretanto, que toda indecisão seja uma escolha consciente ou deliberada. Ao contrário: é justamente nesse ponto que a Psicanálise introduz a dimensão do inconsciente. Posso escolher sem saber inteiramente o que estou escolhendo.


O desejo e a escolha em Deleuze e Guattari

Em Deleuze e Guattari, encontramos uma crítica diferente à concepção tradicional de escolha. Para esses autores, o desejo não deve ser compreendido simplesmente como uma falta que espera ser preenchida. O desejo é produção: produz relações, encontros, possibilidades, conexões e modos de existência.


Por isso, a pergunta deixa de ser apenas:

“O que eu quero?”

e pode transformar-se em:

“O que o meu desejo está produzindo?”


Nessa perspectiva, uma escolha nunca acontece no vazio. Somos atravessados por relações familiares, sociais, econômicas, culturais, afetivas e históricas. Existem discursos e dispositivos sociais que nos dizem o que significa ser bem-sucedido, escolher uma profissão, constituir uma família, amar, envelhecer, consumir ou ser feliz.


Assim, aquilo que imaginamos ser uma escolha absolutamente individual pode estar conectado a uma rede muito mais ampla de forças e relações. O desejo para Deleuze e Guattari, não existe isolado do mundo; ele se produz em meio aos encontros que estabelecemos com outros corpos, pessoas, instituições, discursos e acontecimentos.


Nesse sentido, não saber o que escolher pode indicar que os antigos territórios já não dão conta daquilo que estamos vivendo. Os velhos mapas deixam de orientar porque alguma coisa se transformou. Novos encontros, experiências e acontecimentos podem produzir outros desejos, fazendo com que antigas respostas percam sua força.


É nesse ponto que podemos aproximar o não saber da ideia de desterritorialização. Não saber pode significar que ainda não encontramos um novo território para aquilo que está emergindo. O problema, portanto, não é necessariamente a ausência de um caminho, mas o fato de que o caminho ainda precisa ser inventado.


Quando nos falta um critério previamente estabelecido para escolher, talvez seja necessário experimentar. Mas experimentar não significa agir de maneira irresponsável ou simplesmente abandonar-se ao acaso. Significa abrir-se à possibilidade de produzir novos encontros e observar o que esses encontros fazem com nossa potência de existir.


A linha de fuga, em Deleuze e Guattari, não precisa ser entendida como uma fuga da realidade. Ela pode ser compreendida como uma possibilidade de criação de novas passagens quando os territórios existentes já não comportam aquilo que estamos nos tornando.


Escolher, nessa perspectiva, não significa necessariamente encontrar o destino correto. Significa produzir um caminho, abrir uma passagem onde antes havia apenas um muro.


Aqui podemos aproximar Deleuze e Guattari de Espinosa: a questão deixa de ser simplesmente descobrir aquilo que devemos fazer e passar também a considerar quais encontros aumentam ou diminuem nossa potência de agir. Que relações ampliam nossa capacidade de existir? Quais nos diminuem, nos aprisionam ou nos fazem viver predominantemente sob o signo da culpa e da impotência?


Considerações finais

Aqui surge uma aproximação interessante entre a Psicanálise e o pensamento de Deleuze e Guattari.


Na Psicanálise, o não saber pode apontar para aquilo que permanece inconsciente e que ainda não conseguimos reconhecer como desejo, conflito ou determinação psíquica. Já em Deleuze e Guattari, o não saber pode abrir um campo de possibilidades ainda não determinado, no qual novos desejos, relações e modos de existência podem ser produzidos.


Portanto, o “não sei” pode assumir sentidos diferentes. Pode ser um bloqueio: “Não sei o que escolher porque tenho medo de perder, fracassar ou decepcionar alguém.” Mas também pode ser uma abertura: “Ainda não sei porque existem possibilidades que eu nunca havia imaginado.”


Talvez, em determinados momentos, seja necessário habitar o não saber durante algum tempo. Não para permanecer indefinidamente na indecisão, mas para permitir que algo possa emergir antes que seja imediatamente submetido à necessidade de uma resposta. Será que preciso imediatamente encontrar uma resposta — ou precisamos primeiro descobrir o que, em mim, está pedindo para ser escutado?



 
 
 

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